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domingo, 23 de outubro de 2011

TEOTÔNIO VILELA

TEOTÔNIO VILELA: VIGOR DE DEUS

Pedro Simon

Nada mais difícil do que traçar o perfil do Teotônio Vilela, apesar de ter convivido com ele durante tanto tempo, na resistência democrática e na luta pelos direitos mais fundamentais de todos os brasileiros. É que ele parecia transcendental. Ele inspirava algo de divino. Pudera, ele incorporava o poder de Deus até no próprio nome! Talvez seja por isso que o seu reino parecia não ser, também, deste mundo. Como alguém que encarnou, no seu tempo, a imagem do semeador, ele plantou idéias e exemplos. E não partiu para a eternidade sem, antes, ensinar todos os passos da colheita.
                                         
               TEOTÔNIO VILELA

Talvez não fosse necessário resgatar a sua biografia. Porque a vida dos verdadeiros amigos é transparente. Imagine-se, então, a dele, que dedicou a sua existência a todos os que pouco ou nada têm além da própria vida. Ele era onipresente. A dor do excluído era, para ele, sempre maior do que a de seus cânceres. E ele pregava que a fome, a miséria e a injustiça são tumores malignos, mas curáveis. Suas muletas pareciam ser, na verdade, batutas. Como um maestro, dava o tom e marcava as entradas. Dos cárceres, dos templos invadidos pelos vendilhões e dos corações petrificados pelo ódio, pela discriminação e pela omissão.
Apesar de, ainda hoje, sentir a sua presença viva, como uma luz, eu, às vezes, imagino o Teotônio caminhando, no planalto do céu, de braços dados com o Ulysses, com o Tancredo, com o Pasqualini e com tantos outros. Parece-me, até, que nenhum deles está a desfrutar do merecido descanso. Porque eu também imagino que o Teotônio continua inquieto com o que está acontecendo nestas terras acidentadas do Brasil. Quem, como eu, tantas vezes caminhou ao seu lado, sabe que ele não descansará, nem no céu, enquanto faltar pão na terra onde ele ensinou a plantar e a colher. Por isso, para o seu verdadeiro descanso eterno, ele quer a salvação de todos aqueles que ainda ardem no inferno da fome, da desnutrição, da miséria, da doença, do analfabetismo, da injustiça, da discriminação e da omissão.
Teotônio Vilela é o outro nome de todas as ruas e praças deste País. Porque, em todas elas, ele fincou a sua bandeira da esperança. Ele dizia ser um homem de muita sensibilidade e de muita ilusão. E que “é preciso acreditar no amanhã, mesmo sabendo que, até lá, é preciso muito esforço e tenacidade. A gente sentir lá dentro que é capaz de ultrapassar a adversidade é uma forma de ilusão. É o meu caso. E não é uma coisa vã, desprovida de qualquer apoio, porque eu sinto isso. É um problema de sensibilidade”.
Pois é, Teotônio Vilela não morreu. Deus lhe pediu um aparte!

Fonte:
SIMON, Pedro. Reflexões para o Brasil do século 21. Brasília:  Senado Federal, 2008.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

DOM NIVALDO MONTE

TRACOS DE SUA CULTURA

Hélio Galvão
Dom Nivaldo Monte

Para chegar até aqui, acolhendo com gratidão o convite, não foi pequeno o esforço nem menor a violência para vencer o desen­canto e o cansaço. Os anos que vivi já me permitem cantar o Nunc dimittis, esperando o dia do Senhor, que virá sem aviso prévio, como um ladrão, de noite (1 Tes 5,2).
Vai para três anos, me foi desferido o golpe, rude, brutal, inesperado, contundente como uma pedrada, violento quanto um raio. A esse impacto, o ânimo se me abateu, e se não afundei nas cavernas da depressão, é que me sustentou, amorosa, a mão do meu Deus, que desceu sobre mim. Et ponis super me manum tuam (S1 138, 5).
Outros terão passado pela mesma dolorosa experiência e terão reagido por outras maneiras. Não me envergonho de minhas fraquezas e ao peso da tragédia baixei a cabeça, em gesto de sub­missão, para aceitá-la. Fiat voluntas tua. Mergulhei num mar sem praias, e de mim se apoderou uma tristeza incurável. Fiquei desde então naquele estado de pecado, que Amado Nervo censurou em um dos seus poemas:

Viste, cantando, el traje que el Señor te viste,
Y no estés triste nunca, que es pecado estar triste.

Secou a caneta, criou ferrugem o teclado da máquina, en­torpeceram as mãos. Estancaram as fontes da inspiração e estiola­ram as faculdades criadoras, que dão espírito e vida à palavra e fazem vibrar as emoções, sem as quais toda obra intelectual perde o vigor, murcha e fenece.
Recolhi-me ao convívio da família desfalcada, e reunindo pedaços de resistência, ao estímulo de amizades que não faltaram, refugiei-me no silêncio da biblioteca, para extrair dos livros que juntei, a seiva que dá força à fragilidade destes restos de ida. Ainda Amado Nervo me vinha lembrar, em outros dos seus poemas:

Un rastro siempre adusto es un dia nublado
es un paisage lleno de hosquedad, es un libro
en idioma estranjero

Não. Não vim aqui para falar de mim. Venho falar do ou­tro. E o outro é um daqueles que veio para perto de mim na hora molhada, de lágrimas quentes e de amarguras incontidas. O outro é este que acaba ingressar no grêmio da Academia, entrando sem lhe forçar as portas, que alçaram os dintéis para dar-lhe passagem, larga e franca. E entra com credenciais muito legítimas, títulos muito autênticos, ornado de valores com que o agraciou a Provi­dência. Não os ornamentos litúrgicos do seu munus episcopal, mas aqueles outros adornos inapreciáveis do talento sem ostentações, da cultura para o momento oportuno, do saber para a hora adequada.

Dom Nivaldo Monte

A carreira eclesiástica abraçada com decisão por Nivaldo Monte, ainda nos anos verdes da juventude, iniciou-a no Seminá­rio de São Pedro. Prima tonsura, 17 maio 1956. Subdiaconato, 29 junho 1940. Diaconato, 15 agosto 1940. Ordenação, 12 janeiro 1941. Primeira missa no Colégio Imaculada Conceição, 14 janeiro 1941.
O mistério iniciou na Paróquia de São Gonçalo do Amarante (1941), depois na Paróquia de Goianinha (1942) onde fui encon­trá-lo ardendo em febre, e por algumas horas lhe servi de enfermeiro, no momento preciso em que chegava o irmão, o saudoso e querido Padre Monte. Assistente eclesiástico da Juventude-Feminina Cató­lica Brasileira de Natal (1944-1963) e do Secretariado Arquidioce­sano de Ação Social (1946-1957 e 1965-1966). Capelão do Abrigo Juvino Barreto (1945), Colégio Nossa Senhora das Neves (1947­1963), Secretário do Bispado (1959), Diretor Espiritual do Semi­nário de São Pedro. Monsenhor camareiro do Papa João XXIII (1959). Bispo Titular de Eluza, na Palestina, e Auxiliar do Arce­bispo de Aracaju, D. José Vicente Távora (25-04-1963), sagrado em Natal a 21 julho 1963, permanecendo na capital sergipana até 1965, quando foi designado Administrador Apostólico da Arqui­diocese e finalmente Arcebispo de Natal, nomeação de 20 de abril, posse a 9 de maio de 1965.
Seu brasão episcopal, cujos motivos heráldicos aproveitam sugestões do próprio nome (Nivaldo Monte) tem como lema mihi vivere Christus, tirado do célebre e denso versículo da teologia pau­lina, mihi enim vivere Christus est (Ef 1,21).
Professor de ensino médio e superior: Latim e Grego, no Se­minário de São Pedro; Psicologia Geral, História e Filosofia da Educação, na Escola Normal de Natal; Psicologia; na Escola Do­méstica e no Instituto de Ciências Humanas.
Conferencista, seu auditório não se circunscreve no Rio Grande do Norte, mas dilatou-se a outros horizontes. São Luis do Maranhão, Belo Horizonte até Viena, na Áustria, e Louvain, na Bélgica; abordando temas os mais variados: ‘Psicologia da Espiri­tualidade’, ‘Situação da Igreja no Nordeste’, Psicologia das Reli­giosas’, ‘Pastoral da vocação no Brasil, segundo a Conferência de Medellin e as diretrizes do Episcopado Brasileiro’, ‘Conceito de Relações Humanas’, etc.
Botânico, psicólogo, educador, poeta, compositor, cronista, es­critor, conferencista, jornalista, eis os traços da múltipla e poli­morfa cultura de Dom Nivaldo Monte. 
De sua vasta bibliografia, os títulos se destacam para reve­lar que foi na Psicologia o campo que mais lavrou. Esta tendên­cia, que se harmoniza com as exigências do sacerdócio ministerial, do magistério ensinante e do mister perigoso de diretor de consciên­cias, justificam a preferência do escritor, arando em campo intonso; onde as contribuições mais antigas estavam em desacordo com a evolução das técnicas de direção e a observação do comportamento humano no mundo em mudança, na civilização de um mundo mais curto pelas técnicas de comunicações, mas extremamente diversi­ficado nos problemas sociais e nas perspectivas pluralistas da política.
A área de sua atividade de escritor se situa principalmente na linha do sacerdote, que é também educador. Nesse contexto, po­dem ser incluídos alguns de seus livros como ‘Formação do Caráter’ estréia vitoriosa, destinado à formação da mocidade, escrito ‘com carinho e competência’, segundo o registro bibliográfico da Revista Eclesiástica Brasileira (26, pág. 184), já em 7ª edição e ainda ‘Os Temperamentos’, em 6ª edição, para educadores, ‘tão antigo e sério que conserva os prestigiosos quatro temperamentos e tão moderno e prático que os adaptou à ciência psicológica atual’ (REB, 20, pág. 561). ‘Formando para a Vida’, 7ª edição, e ‘Toda Palavra é Uma Semente’, 3ª edição, não se afastam da linha de pensamento do escritor. ‘Clima’ e ‘O Coração é para Amar’, sem se afastar daque­les temas, contêm mensagens ao leitor, que sente palpitar nestas páginas suas próprias aspirações (REB, 25, pág. 184). ‘A Dor’ é livro que retoma o velho tema do sofrimento, em pano de fundo iluminado pela fé. Pensamentos, edição esgotada, com reflexões em torno da problemática da mocidade.
Poeta e compositor, seu livro de poemas Se todos os homens... conhecessem o dom de Deus, está esgotado na única edição.
Sua curiosidade onímoda levou-o até aos segredos da Botâ­nica. A granja que fundou para seu recreio, hoje recreio do Clero ele a transformou em laboratório de experimentações, desde a en­xertia até a adaptação de plantas exóticas. Dessa experiência nas­ceram dois livros, inéditos, aguardando apenas oportunidade de publicação: ‘Experiência nos Tabuleiros do Rio Grande do Norte’ e ‘A Granja e eu’. Este eu o li, nos originais, por gentileza sua, e se agora, inconfidente, faço esta revelação, é para dizer que este livro é um hino em prosa, uma obra de fino lavor, trabalhado com amor e emoções vividas.
Recordo também - e aqui ainda sou levado à inconfidên­cia - do seu desgosto, quando o progresso e a tecnologia exigiram o sacrifício da sua granja, partindo-a ao meio. Ele viu então aque­las irmãs plantas que sua mão plantou, que seu carinho abonou e regou, cujo desenvolvimento acompanhou, cujas feridas de pra­gas curou, ele viu, sim, as irmãs plantas empurradas pela impiedade da máquina, arrancando-as como uma árvore bruta das matas, mortalmente feridas, as raízes expostas para o ar. O sacrifício das afeições mais caras ao deus implacável do Progresso.
Muitas vezes temos conversado sobre outras coisas, simples e gratas, porque além de outras, nossa amizade se firma na con­vergência desse amor franciscano pela natureza, obra também do mesmo Deus criador.
“Sou um homem ambivalente aparentemente contraditório. A alegria sempre foi uma meta na minha vida, mas sinto-me en­volvido por certa angústia no mistério. Enfim, sou esquisotímico” - foi como ele autodefiniu-se para Sanderson Negreiros (O Poti, 13.8.1967, pág. 5).
Ia esquecendo de dizer do seu bom gosto literário, na di­vulgação de alguns livros mestres. Foi por sua influência que o Pequeno Príncipe alcançou um número enorme de leitores em Natal, outro tanto acontecendo com a Montanha de Sete Patamares, o be­líssimo livro autobiográfico de Thomas Merton.
Algumas de suas poesias estão – transformadas em hinos e canções, como Barcarola, Cascatinha, Acalanto, Saudades da Serra. Iremos ouvir, pelo coral formado por muitos amigos, antigas alunas ou senhoras da antiga JEC, algumas que, por isto, deixam de ser incluídas no texto do discurso. Ele revela, traduzindo sua música: “As três canções por mim compostas guardam na sua melodia um tom marcial” (O Poti, cit)
Retomando o fio das palavras, interrompidas para este sur­preendente intervalo, recordo a tradição já antiga da presença de eclesiásticos nas Academias. Fundada por um Cardeal, a Academia Francesa, apenas no interrégno da Segunda República o Clero es­teve ausente, como durante o Reinado de Luís Filipe. Quando, porém, dissolvida pela Convenção, em 1793, aos dezesseis membros sobreviventes o Primeiro Cônsul acrescentou doze ao ordenar que fosse restaurada, dentre os quais cinco eclesiásticos: Mons. Roque­laure, Arcebispo de Malines; Mons. Boisgelin, Arcebispo de Tours e os padres Morellet, Sicard e Villars, futuro Arcebispo constitu­cional. Por suas lustres poltronas, uma delas ocupada por mais de um século somente por sacerdotes, passaram ate hoje grandes figuras da Igreja de França: Cardeal d'Estrées, Cardeal Mathieu, Cardeal Dubois, Cardeal Baudrillart, Cardeal Grente; Mons. Per­raud, bispo de Autun; Mons. Salvandy, bispo de Orleans; Mons. Chamillart, bispo de Senlis, padres como Dupanloup, Gatry, Bre­mond, Lacordaire, o verbo ardente e o corpo machucado nas mor­tificações, a grande voz da ortodoxia na crise provocada por Lam­menais. Ao todo - é um informe do Cardeal Grente - 131 ecle­siásticos, dos quais 17 cardeais e uma trintena de bispos e arcebis­pos (Eccelesia, nº 145, abril, 1961, págs. 91-104).
Na Academia Brasileira não se criou a tradição, apenas re­presentado o Clero por Dom Silverio Gomes Pimenta, Arcebispo de Mariana, e Dom Aquino Correia, Arcebispo de Cuiabá. Não sei porque lá não estiveram o Cardeal Sebastião Leme e o Cardeal Au­gusto Álvaro da Silva. Teria seguramente entrado um bispo emi­nente, cedo roubado à vida, Dom José Gaspar de A. Fonseca e Silva, Arcebispo de São Paulo, orador de inesgotáveis recursos, escritor de famoso talento, bispo de comprovada coragem pastoral.
A nossa, com o Padre Luís Monte, o Cônego José Adelino depois Bispo de Caicó, e agora com o primeiro Arcebispo, que é o mais novo acadêmico, irmão do primeiro, a cuja memória ren­demos culto fiel, firmou a tradição que não teve solução de conti­nuidade. Falta completar, com a convocação do Mons. Eymard Mon­teiro, um dos escritores mais fecundos da nossa pouco movimentada província literária.

Dom Nivaldo Monte

Senhor Acadêmico Nivaldo Monte: pela minha voz, apagada certamente, a que, entretanto, não falta o indispensável teor de jus­tiça, a Academia vos recebe e vos traz a sua saudação. Saudação que, se é uma praxe, ganha nesta noite outras ressonâncias, pelos altos valores que vos exornam na invulgar contribuição bibliográ­fica, na variedade de sugestões que vossa cultura suscita. Exercendo no nosso meio a difícil arte de ser bispo.nestes anos efervescência e adaptação, tendes demonstrado, na simplicidade cativante do homem, vossas exaltantes virtudes de pastor, dentre as quais a simplicidade governa as demais. Disse uma vez Claudel que ‘un bon moyen de connaítre l'âme est de regarder le corps’ (Oeuvres Completes, t XX, pág. 256).
Projeção da alma, o exterior se manifesta na simplicidade da vossa pessoa, na aliciante presença e na versatilidade de vossa arte de conversar. Nestes anos encrespados da renovação pós-conciliar, em que se chocam conservadores e moderados com renovadores e exaltados mudancistas, a política melhor é esta que vossa prudência de bispo põe em prática: não dizer que o bem é mau, nem que o mal é bom, como aos bispos adverte a Igreja na liturgia da sagração: ne dicas malum bonum nec bonum malum. A Igreja de Natal é um exem­plo de tranqüilidade em meio a crises e problemas. ‘L'Eglise est une societé qui se confesse et se reforme’ - disse o Cardeal Braud­ rillart (apud Claudel, Journal, I, pág. 173). A Igreja de Natal, sob vosso baculo, é esta igreja que se confessa e se reforma, aceitando os sinais dos tempos.
Esta é pois a saudação da Academia, que me fez a honra de delegar-me a função de seu intérprete nesta hora. Salutant tê qui mecum sunt omnes (Fm 13,15). Todos que estão comigo vós saúdam: boas vindas.


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Discurso de recepção na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, publicado na Revista daquela instituição, Ano XXV, nº 13, Natal-RN, novembro de 1977, págs. 123-128.

domingo, 16 de outubro de 2011

FREI DAMIÃO

O MISSIONÁRIO
                                             
Cônego Joaquim de Assis Ferreira

Missionário pelos sertões nordestino e, em nosso caso, na Paraíba, sempre os tivemos e extraordinários, embora raros.
Missionários, exímios pregadores do Evangelho, homens cheios de renúncia e vida santa, fundadores de comunidades religiosas, construtores de igrejas, sempre os mereceu o nosso povo, ainda de tempos em tempos.
Só a presença desses homens incomuns representou uma graça eleita do Senhor à nossa gente, sofrida mais cristã.
A sua pregação valia por um estimulo à fé, um ânimo nos sofrimentos, um grito de reprovação aos desmandos dos costumes, um alento para as reformas da vida, uma elucidação das verdades da Igreja, um aprimoramento da vida cristã.
A mensagem, que transmitiam, era autêntica, embora variasse nos métodos.
Ainda que com o timbre pessoal de cada missionário, a sua mensagem, por ser genuinamente evangélica, impressionou vivamente, em todas as épocas, o espírito do nosso povo.

Frei Damião 

Nenhum pregador de verdades tem tido maior receptividade no Sertão do que o missionário.
Todos lhe dão cobertura total com um crédito absoluto de confiança.
O povo vê no missionário um homem de Deus, uma lama pura, luminosa, reta, uma vida santa. Por isso, aceita e guarda a sua palavra.
A vivência da palavra, que prega, dá em favor do missionário um testemunho indiscutível.
Quando, por isso ou aquilo, os fiéis descobrem desacordo ou incoerência entre a vida e a palavra do pregador, entra em pânico e perdem o ardor religioso. Têm razão, por que negar, pois, em matéria de fé, só a palavra quente de vida convence.
Grande sorte há sido nossa a santidade dos nossos missionários. Varões de Deus é que eles têm sido.
Assim, através dos tempos, Ibiapina, Herculano, Martinho e, agora, neste quase meio século, o maior de todos, ao meu ver, Frei Damião.
Conheci Frei Damião, em 1936, ao tempo da sua primeira missão na cidade de Cajazeiras, quando Cajazeiras e Patos eram a mesma diocese.
Vinha ele do seu jornadear apostólico no Ceará. Nas cidades do vizinho Estado, onde havia feito grandes movimentações de massa, grandes concentrações de fiéis, a fama começava a espalhar-se, mas, para as nossas bandas de cá, do Sertão da Paraíba, era muito pouco conhecido.
Lembro-me muito bem da chegada dele, em Cajazeiras. Tudo estava certo e previsto pelo então vigário Pe. Fernando Gomes, atual arcebispo de Goiânia: hora, local da recepção, restante do cerimonial.
Duas horas passadas e nada do missionário. A partida de Lavras do Mangabeira, no Ceará, tinha sido difícil pelo motivo de grande ajuntamento de pessoas que acorreram às despedidas de Frei Damião.
Em palácio, na companhia de Dom Mata, procurávamos adivinhar as razões da demora, quando se ouviram cânticos religiosos pelas ruas, e, dentro em pouco, passava às nossas vistas, acompanhado de um pequeno cortejo de meninos e vários adultos, um religioso baixinho, passo apressado, em direção à catedral, em cuja praça fronteiriça iriam dar-se as missões.
Era Frei Damião, que havia descido do automóvel, à entrada de Cajazeiras, e vinha arrebanhado o pessoal.
Estranhamos o método mas ficou nisso.
À noite, começaram as missões. O missionário impressionava fortemente.
Dia a dia, aumentava a afluência do povo, sequioso de ouvir a palavra do pregador e os seus conselhos prudentes.
Éramos vários sacerdotes, trabalhando todos dia e noite, às vezes, a noite inteira, e não dávamos atendimento aos fiéis.
As missões agradaram e repercutiram de tal modo que a procissão de encerramento ultrapassou todas as expectativas e cálculos. Foi um deslumbramento não só pela incontável massa humana como pelo entusiasmo e fervor religioso do povo. Todos, brandindo ramos, davam a impressão de uma floresta em movimento. Dom Mata, vibrante como era, não se continha e exultava. Cousa tanta nunca vista em Cajazeiras.
Daí por diante, à medida que se multiplicavam as missões pelas diversas paróquias da Diocese, crescia o nome e a fama do missionário.
Na paróquia de Catolé do Rocha, ao tempo, em que fui vigário, Frei Damião pregou missões por duas vezes.
Com Dom Mata, ajudei nas missões de várias paróquias.
Sempre me interessou pedir notícias de Frei Damião, em suas intermináveis andanças e correrias apostólicas.
Nunca muda. Sempre o mesmo homem extraordinário em todas as idade, em todas épocas, em toda parte, em todas situações.
Hoje, quase aos 71 anos, aos 46 de sacerdócio e de missionário, é o mesmo Frei Damião dos primeiros dias de Cajazeiras.
A mesma cousa. Madrugador, lépido e apressando no andar, quando sai pela manhã; tranqüilo e concentrado nas outras horas; incrivelmente incansável, pois nem sei se dorme; paciente e tratável com o povo; delicado e caridoso com os penitentes; prestimoso e jovial com os colegas; humilde e obediente aos superiores; sério e pontual com os compromissos; extremamente zeloso com os enfermos e com os pobres; solícito no púlpito ou no confessionário; solícito no catecismo ou administração dos sacramentos; solícito, quando prega, admoesta ou verbera; solícito, quando ensina ou instruir; solícito, quando repreende; solícito em tudo.
Vezes, sentido mas nunca zangado; vezes, impetuoso mas nunca violento; vezes, sonolento mais nunca cansado; vezes, teimoso no trabalho, mas só pelo desprendimento de si mesmo, por amor às almas, pela glória de Deus.
Se vergasta, não é descaridoso; se lhe sai a apóstrofe em chamas, é só para o convencimento da verdade; se chicoteia o pecado e o vício, recebe sorridente o pecador; se adverte, não é com ares de profeta; se ameaça, não é com iras de apóstolo.
Quando fala, convence; se não fala, impõe respeito.
Inteligente, culto, sua palavra é luminosa e inflamada; sua doutrina, segura e substanciosa; sua argumentação, contundente e arrasadora; sua exposição, clara e acessível.
A mesma, que transmite, é autêntica, não é outra, é a mesma de Cristo.
Se um homem desses não é santo, ai de nós! Que cousa somos!
Se o povo reconhece naquele que lhe fala de Deus, que ele vive de Deus, se confirma a sua virtude invulgar - que mal faz que este povo ame ardorosamente o seu missionário, que o admire, respeite e estime, que queira bem ao velhinho.
Se há cordões policiais de isolamento, em derredor de astros e estrelas, de líder e heróis, para protegê-los do entusiasmo vibrante dos seus fãs, devotos e admiradores - com que razões se condenaria o fervor e a exultação dos fiéis na presença do seu missionário!
Sobretudo, quando esse fervor ajuda eficazmente na aceitação e convencimento das verdades proferidas pelo pregador.
Somos realmente levados a receber com facilidade a palavra daquele, a quem amamos. E as sentenças do missionário são palavras de Deus.
Quem procura inflamar de amor o mundo, merece o amor dos homens.
Por que também pretender criticar, como antiquado, o método de apresentação da doutrina, seguido por Frei Damião?
O método é o meio de transmissão da verdade ou mensagem. Não é a própria verdade, não se identifica com a mensagem.
Se o mestre ou pregador consegue transmitir a doutrina, contida nas suas preleções ou prédicas, excelente é o seu método.
Quem melhor do que Frei Damião atinge a mente dos seus ouvintes!           O próprio exagero, segundo Jackson de Figueiredo, na base do espírito é um perigo mas já, com elemento de convencimento, é insuperável.
Por que azedar-se ainda com a pregação do missionário, fundamentada nas duras verdades eternas! Quer cousa diferente, destrua o Evangelho. O novo, só por ser novo, não é carismático, seja palavra ou sistema.
A humanidade adquire, em cada época, o colorido do tempo mas não muda em sua essencialidade, para que continue humanidade.
O novo só e o velho só são visões unilaterais e deturpadas do conjunto. Misturem-se os dois, e haverá harmonia e beleza.
Diga-se só a título de ilustração. Que cousa mais bela do que o ecumenismo! Bela e cristã! No entanto, o ecumenismo não carismático.
Veja-se aí, em pleno século vinte, na super-politizada Europa, em pleno coração da Irlanda, essa guerra santa e sangrenta entre irmãos separados - católicos e protestantes.
A grande virtude de Frei Damião, como autêntico missionário e pregador da palavra de Deus - é a coragem de dizer ao seu auditório não as verdades que ele quer ouvir mas as verdades que ele deve ouvir.
Paremos aqui, que já vai longa esta crônica, sem nos esquecermos de que é graça extraordinária de Deus uma missão e, por ser singular e rara, ninguém dela abusa inutilmente.
Muitíssima cousa a mais tinha a dizer com agrado e simpatia sobre Frei Damião, o Missionário.

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Do livro ‘Crônicas das 12

         






segunda-feira, 10 de outubro de 2011

AUGUSTO SEVERO

EVOCAÇÃO A AUGUSTO SEVERO

Enélio Lima Petrovich,
presidente do Instituto Histórico e Geográfico
do Rio Grande do Norte


Na magnitude desta manhã tropical e votiva, cabe-nos, neste instante solene, evocar a memória de Augusto Severo de Albuquerque Maranhão, sintetizando a homenagem mais justa, mais sentimental e mais espontânea a esse mártir norte-riograndense, nascido em Macaíba, em 11 de janeiro de 1864, quando, nesta data de 12 de maio, comemora-se o centenário de seu encantamento, na velha e fascinante Paris, pelo idealismo que o levou ao pedestal da glória.

Augusto Severo de Albuquerque Maranhão

Sem dúvida, não poderia o nosso secular Instituto Histórico e Geográfico, com o apoio da Força Aérea Brasileira, aqui representada pelo Exmo. Sr. Coronel Aviador Luiz Antônio Rezende Lima e seus comandados, estudantes em geral, confrades, descendentes do herói, autoridades, ficar ausente às comemorações pelo evento histórico.
Daí estarmos reunidos nesta praça que tem o seu próprio nome, mirando a sua estátua.
Decerto, jamais devem ser olvidados, no presente, os feitos de nossos maiores, em prol da terra comum, à luz da liberdade, esta que para Victo Hugo, “tem as suas raízes no coração do povo, como as tem a árvore no coração da terra”.
Foi a conquista do espaço o ponto convergente do progresso internacional. Através dela, espargiram e se irradiaram as realizações no campo do desenvolvimento tecnológico, embora ensejando um misto de alegria e de temor, porque o homem às vezes procura ser o seu próprio lobo, na expressão de Hobbes, face a uma perspectiva de futuro incerto e duvidoso.
Mas, do ideal de Augusto Severo, na recordação do dirigível PAX- semi-rígido, até o 14-BIS, de Santos Dumont, cortam a amplitude do infinito, na contemporaneidade, os aviões supersônicos.
E tudo isso, na trajetória do tempo, oriunda da semente plantada em 12 de maio de 1902 - há cem anos, quando Augusto Severo subiu aos céus de PARIS, imortalizando o seu gesto heróico.
Augusto Severo - 4 anos antes da façanha de Santos Dumont - despontava com o seu invento. Indo morar na velha capital federal, sempre se preocupou com a navegação aérea.
Foi um dos talentos mais genéricos de seu tempo.
Gilberto Freire, sociólogo de renome, o cognominava “o grande romântico, figura esplêndida da aristocracia do Norte”.
O seu 1º balão, de 1893 - o Bartolomeu de Gusmão - antecipou-se ao Zepelin. Tanto que a 1ª viagem que o GRAF ZEPELIN fez ao Brasil, voou sobre Natal, em 28 de maio de 1930, e sacudiu uma corbeille de flores naturais sobre esta estátua. Nela continha os seguintes dizeres:

“Homenagem da Alemanha ao Brasil, na pessoa de seu filho Augusto Severo”.

Eis, portanto, a presença viva, imorredoura, desse vulto que engrandece não só o país, mas o mundo inteiro.
Nesta data, assim, 12 de maio de 2002 - cem anos de seu falecimento, exaltemos, também, a Força Aérea Brasileira e, à sua sombra, no correr do tempo, os avanços da modernidade e do progresso.
Se Augusto Severo, no discurso que proferiu na Câmara dos Deputados, em 1901, com a idade de 27 anos, fez justiça a Santos Dumont - Patrono da Aeronáutica - nos compete, nesta hora, em frente a sua estátua, render nosso preito de gratidão ao valoroso e intrépido norte-riograndense.
Ele soube, como raros, ser digno, solidário, corajoso e justo, graças ao seu bom senso e a sua genialidade.
Sigamos ainda a lição de Paulo Viveiros, que fora nosso mestre do Direito e da História, quando proclamou:

“A exemplo de Camarão e do Padre Miguelinho, o nome de Augusto Severo cobre e enche o Estado, através de gerações e é venerado como um grande filho do Rio Grande do Norte. Os jovens formam-se no respeito à sua pessoa, os aviadores perfilam-se perante a sua estátua e todos os anos, num dia como este, coberto o céu natalense de aviões em grupo, juntam-se estudantes e soldados, com o povo e as autoridades, na mais sincera homenagem ao brasileiro, sacrificado em Paris, onde, acima de qualquer lugar, honrou a sua pátria e enalteceu a sua geração”.

Também sobre ele, um outro Augusto, seu neto, não mais entre nós, assim nos confessou, em outubro de 1979:

“Eu volto ao tempo e penso em Severo, o homem e não apenas o cientista. Imagino seus sonhos, suas andanças pelas ruas de Paris, sua vida com Natália, seus papos nas cadeiras da calçada de um café, bebendo um  “rouge” e discutindo vida. Penso num Severo, como todos nós, amando, sofrendo, tendo dúvidas, vivendo finalmente.”

E nós acrescentamos:
Severo, realmente, foi um herói. Pobre, muitas vezes ridicularizado pela sua iniciativa, irmão de Pedro Velho - o primeiro governador republicano do Rio Grande do Norte, e de Alberto Maranhão, também governador - o mecenas da Cultura potiguar, nunca se abateu diante das críticas e, vencendo os obstáculos, tornou-se o pioneiro da aviação.
Esta, pois, a nossa reverência sentida e jubilosa a Augusto Severo, olhando, alegres e comovidos, a sua imagem, pela valorização da inteligência, da cultura e da fraternidade humana.
Pisando terra firme ou conquistando o espaço infindável, servimos, na lição e testemunho de Severo, à família e à pátria.
Aliás, Câmara Cascudo, genial e humilde, nos dá este depoimento;

“Na última vez que Severo esteve em Natal, passeou com Henrique Castriciano, no bairro de Petrópolis. E portanto para o leste, até os montes, disse que aquela era a pista de sua vinda. No alto, as muralhas do  “Forte dos Reis Magos, beijadas pela sombra do dirigível vitorioso.”

E arremata:
“Onde estiver o PAX está o Brasil. E se podemos evocá-lo no PAX, Augusto Severo era grande sem ele”.

Enfim, onde quer que estejamos, obscuros ou no ápide dos episódios que dignificam esta existência fugaz, não nos esqueçamos, de igual modo, do aviador, protótipo de bravura e de civismo, emergindo de seus corações e chama do dever, pelo amor ao Brasil.
No epílogo desta breve exaltação telúrica e emocional, in memoriam de Augusto Severo - no centenário de sua morte, dignitários que somos desta mensagem evocativa, em nome do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, também centenário, ainda recorremos ao poeta Gotardo Neto, no simbolismo e significado deste ato solene e singelo, para com ele repetir:

“Nobre vulto da pátria fecunda,
Alma feita das luzes do bem.”

E como no deslumbrante  exemplo de Fernão Capelo Gaivota, que não era um pássaro vulgar, Augusto Severo, à nossa frente, imortal, vive na lembrança de todos nós, pelos caminhos da História.
Vive nos céus do Brasil, em dimensões universais, sob as bênçãos de Deus.


_______________
Discurso proferido no dia 12 de maio de 2002 - centenário de falecimento de Augusto Severo, em frente à sua estátua, na Praça Augusto Severo, em Natal-RN.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

HENRIQUE CASTRICIANO

ARTISTA INACABADO

Nilo Pereira

A memória, por mais fiel, não saberia reproduzir o meu primeiro encontro com Henrique Castriciano. Para nós estu­dantes, era sempre o homem chegado de alguma parte: ­Paris ou o Oriente. Parece-me revê-lo: lento, o ar distraído que era o da própria cidade que ele refletia. Quase tudo em que tocou, deixou inacabado, menos a Escola Doméstica, da qual já se disse que é o seu maior poema. Dele se poderia afirmar que soube construir as suas capelas imperfeitas. Imperfeitas no tempo: a perfeição estaria na arte do inacabado.


Que representava ele na vida cultural do Rio Grande do Norte? Era nessa orografia literária o ponto culminante. Otacílio Alecrim, que tanto o admirou, dedicou-lhe o seu livro ENSAIOS DE LITERATURA E DE FILOSOFIA’ (1955).
No Prefácio logo o associa a Noiré e a Kant: - era uma de­corrência lógica, acentua o escritor. Não esquece que as QUESTÕES VIGENTES, de Tobias Barreto, são o seu livro preferido, conforme confissão pessoal. E, no entanto, era um contemplativo. Sobre o Jordão, por exemplo, um doce misticismo lhe invade a alma. A página que não se perdeu, graças a Waldemar de Sá, escrita no Álbum de Madalena Antunes Pereira, está publicada no ‘Boletim Universitário’, da UFRN, janeiro/março de 1966. É um canto de quem volta a si mesmo; uma liturgia do poeta itinerante, que tem ali a lembrança feliz da sua vida.
O Jordão não é o Letes. Ali é para lembrar; não para esquecer. Impossível falar sobre Henrique depois que Luiz da Câmara Cascudo publicou o seu livro NOSSO AMIGO CASTRICIANO, Recife, Imprensa Universitária, 1965, que tive a honra de prefaciar. O que cabem, agora, são recor­dações pessoais, as nossas capelas imperfeitas pela ânsia de não atingirmos o modelo de uma geração romântica e par­nasiana, o grande poeta cujo centenário estamos cele­brando.
Não sei de intelectual que, mais do que Henrique Castriciano, tenha cultivado a solidão. Não nos podíamos aproximar dele tão facilmente quanto de Cascudo ou do Padre Luiz Gonzaga do Monte. Henrique era a leitura solitária. Vi-o no seu universo estético, a mesa atulhada de livros, revistas francesas, jornais. Movia-se lentamente. Também foi assim em Lousanne, conta o irmão Eloy: no seu quarto estava a maior livraria de viajante e doente que José Vieira havia visto. A impressão era a de que, curado, temia a Dona Branca, embora não a tenha cultivado em versos como Manuel Bandeira.
Nesse ambiente estava o sonhador. Creio que será certo dizer que Henrique sonhou a vida toda, sem ter conseguido, talvez por temperamento, concretizar tudo quanto havia imaginado. O inacabado é nele uma maneira de acabar, isto é, de não prosseguir.
Depois da Escola Doméstica tudo o mais lhe viria por acréscimo. E quedou-se contemplativo. Nem escreveria o seu tão anunciado livro sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta nem completaria o seu romance OS MORTOS. Semeava, mas nem sempre colhia. Outros levaram por diante alguns dos seus planos. Homem sem pressa, via o mundo marchar. Co­locado entre dois séculos, seria uma síntese do liberalismo já esgotado. Nós todos sabíamos que ele era essa história vi­vida em tantas dimensões quantas o espírito humano pudesse ter. Mas suas janelas estavam fechadas. Lá dentro meditava o monge. Não se entregava logo à conversa fácil e arrebatada. Talvez fosse melhor segui-lo na rua do que procurá-lo em casa. E, contudo, havia nele uma imensa do­çura. O poeta olhava o mundo do seu recanto. E sua alma lúcida penetrava nos segredos da vida. Em torno dele as ge­rações viviam a sua perplexidade. Ele sentia isso. Mas era humilde. Nunca se fez de mestre; e valia por uma Univer­sidade. Ainda assim, não sabia os alunos que tinha.

O MÍSTICO DE LAUSANNE

Falar em Henrique Castriciano é, segundo Otací1io Alecrim, fugir ao político, que ele não foi, para considerar o ‘clérigo’, o intelectual puro. No artigo publicado no ‘Diário de Pernambuco’ de 15 de agosto de 1933, intitulado ‘Re­descoberta do Místico de Lausana’, Alecrim se refere a uma revista argentina que, fazendo um registro sobre as ‘Me­mórias’ do Sr. Muret, alude a Castriciano. O artigo fere de frente o velho problema da dissociação entre o escritor e a política. É o que o articulista chama o fenômeno da ‘clericatura’, lembrando a linguagem de Julien Benda, em TRAHISON DES CLERCS. Essa dissociação - observa Ota­cílio - levou Henrique a não ser político: não o permitiam os modelos do tempo.
O ‘místico de Lausanne’ se refugia na literatura. Não podia ser político - salienta o articulista e ensaísta - quem tanto se batera pela inteligência pura, como um ‘clérigo’ fiel, quem fundara a Liga do Ensino e a Escola Doméstica; quem escrevera - é ainda Alecrim quem o registra - aque­les capítulos do romance OS MORTOS, debatendo problemas da cultura moderna. Mas isso não nos levará a esquecer a sua figura barroca de Vice-Governador do Estado, um clás­sico da política sem o gosto da cena. Desengonçado na sua maneira de ser homem como que desajustado a si mesmo, se bem que tão provinciano quanto universal. Um outro Quixote gordo, como chamou Gilberto Freyre a Oliveira Lima, outro amigo de Henrique, por ele levado ao alto de Petrópolis para ver o encontro talássico do mar com o rio, como Nabuco levara Ramalho Ortigão ao alto da Sé, em Olinda, para ter a mesma impressão. E já que se fala em Nabuco, venha a influência de Renan no nosso escritor, recolhido ao seu ascetismo filosófico, em busca do estilo, que é o seu feitiço.

O FIEL DISCÍPULO

Henrique Castriciano foi talvez o mais fiel discípulo, que Renan teve no Brasil. Nem Joaquim Nabuco, que, em MINHA FORMAÇAO, confessa tão rasgadamente a influência que recebeu do escritor francês, pôde manter essa fidelidade de maneira tão liturgicamente castriciana. Nabuco voltou à Fé, em Brompton. Seu livro FOI VOLULUE – MYSTERIUM FIDEI, editado pela Universidade de Provence, 1971, - é a história desse retorno. Havia nisso, ainda uma vez, o que ele chamou ‘a saudade do escravo’. Foi nas litanias dos es­cravos, na senzala, em Massangana, que ele ouviu o canto sagrado evolando-se para o céu em preces de ternura africana.
Cascudo surpreendeu Henrique recitando a ‘Oração na Acrópole’, de Renan. Tudo faz crer que, em Renan, não era o filósofo que ele procurava, nem o historiador de Jesus: era o estilo. O feitiço da frase. Era aquele a quem Nabuco chamou ‘o bicho de seda da prosa francesa’. Sua admiração seria estética; mas é impossível compre­ender Henrique fora desse ângulo e dessa influência literá­ria, que à humanização de Jesus - sutilmente tentada por Ernesto Renan - acrescentava o esteticismo da construção. Não se concluiria daí que o escritor norte-riograndense se deixasse arrastar todo inteiro pelo mestre da prosa, a quem o neto Psichari daria mais tarde a resposta quando fixasse, num agudo momento da vida francesa, as linhas mestras da Igreja, que Renan abandonara.
Dando a impressão de ser um eclético, não adotando uma filosofia que fosse a de guias indiscutíveis, pois que preservava a sua liberdade de espírito pela maneira como entendia que devia preservá-la, não seria um descrente, em­bora fosse um cético.
Na ‘Revista do Rio Grande do Norte’, do Centro Poli­mático, Natal, julho, nº 17, em artigo intitulado ‘Um Sinal da Época’, Henrique se ocupa da Questão Religiosa. Estra­nho assunto, talvez, num homem sem essa preocupação, a menos que, dentro das conotações renanianas, o motivo fosse oportuno para alguma dissertação (aliás, Henrique não era dado às dissertações) contra a Igreja. Sobre Dom Vital escreve o eminente escritor:
“Seja como for, D. Vital ficou sendo uma das figuras mais salientes do clero brasileiro, arquétipo raro de combatente abroquelado na fé e no dogma.
“Teve a coragem de suas convicções: respeitamos-lhe a memória”.
Era sobretudo pela coragem das convicções que Hen­rique admirava o bispo de Olinda. Porque quanto à sua posição, também eram claras as suas palavras, como a reclamar do Catolicismo figuras que enchessem o mundo da cultura, da ciência e da arte. Eis o que ele diz: - “Que me apresentem, na Europa, um Spencer, de batina, e, no Bra­sil, um Tobias Barreto calçando botinas de fivelas de prata ou usando colarinhos rendados”.
Aí Spencer e Tobias ocupam o universo castriciano da cultura e do saber. Tudo muito de acordo com a interpretação de Otacílio Alecrim, inclusive quando alude à admi­ração que Henrique tinha pela chamada Escola do Recife, embora fosse ele bacharel, na época, estranhamente de For­taleza e do Rio de Janeiro, e não do Recife, para cuja Fa­culdade acorriam os jovens do Rio Grande do Norte.


Nada abalaria no seu espírito o culto de Renan. E, to­davia, vale a pena lembrar, um escritor do seu tempo Graça Aranha - no seu livro A ESTÉTICA DA VIDA - ­escreveu estas palavras quase contundentes: - “Renan não foi um pensador do seu tempo e por isso não foi respeitado pelo tempo”. Termina vendo nele “uma mistura de enci­clopedista e humanista do século XVIII”. Enquanto isso Graça Aranha aponta como figuras imorredouras Platão, Tomás de Aquino, Descartes ou Spinoza.
Henrique não teria posto Renan nesse enfoque, como se diz hoje. O estilo do “bicho de seda” estava na raiz do seu artesanato estético. E bastava. Sem essa explicação, o prosador não alcança as dimensões intelectuais do seu gosto provinciano de ser universal. Era para a Província que trazia todo o seu entusiasmo criador, sua intuição em cer­tos casos bergsoniana, sua capacidade de refletir sobre pro­blemas do mundo sem esquecer as coisas miúdas do coti­diano. Dentro dessa perspectiva de esteta, não se podia esperar que ele fosse um político, como o irmão Eloy, nem um poeta como a irmã Auta, em quem a meditação da vida - como salientou Jackson de Figueiredo - era o caminho do que então tanto se chamou a Poesia em Cristo.
Para ele, essencialmente um poeta, a vida carecia duma fuga estética, à procura da beleza universal, que tanto pode estar no mármore da sua estátua, que fala sem precisar que o criador, como Miguel Ângelo, a mandasse falar, como no aboio, que é uma orquestração de sofrimentos humanos, ou em tudo quanto a arte tenha produzido em qualquer tempo onde o homem tenha posto o sinal indelével do seu gênio. E à semelhança do grande poeta Jorge Fernandes - que Veríssimo de Melo nos trouxe de volta ­ele, o poeta, o Henrique tão sensível à beleza das coisas, podia exclamar: ­

Que linda manhã parnasiana...
Que vontade de escrever versos metrificados,
Contadinhos nos dedos...

Caminhando, silencioso, pela cidade, como que trazia consigo o peso do mundo. E pensava em tudo: em Renan como em Itajubá. No que diziam as revistas francesas ou no que podia dizer - e porque não? - a do Centro Polimático, ou ‘A República’, que era uma escola de escritores, de jornalistas, de poetas, de políticos, revivida com excepcional brilho no governo Juvenal Lamartine.

O ARTISTA

Henrique Castriciano, nascido na então vila de Macaí­ba em 15 de março de 1874, está em Natal em 1891. Era ‘xaria’. Foi na antiga Rua dos Tocos que o visitei. Ali es­tava o mundo dos seus livros dispersos. Bem que se podia colocar na atual Rua Princesa Isabel, que era a dos Tocos, uma placa indicando a casa onde residiu o poeta. Aos dezessete anos foi convidado por Pedro Velho para escrever n‘A República’. Não sei quem mais teria essa glória nessa ida­de. Em 1892 publica pela Tipografia do Governo seu livro de versos IRIAÇÕES, ‘versos de menino-grande’, escreve Cascudo. O poeta tem dezoito anos. Iniciava uma carreira que ia mostrando seu talento e lhe abria um horizonte que poucos viram tão cedo rasgar-se à inquietação intelectual. Em Fortaleza, 1898, publica RUINAS. No dia 28 de março de 1897 ‘A Republica’ estampa o seu famoso poema ‘A Es­tátua’, que revela o cinzelado esplendido do verso: o mármore estremece e vibra e fala à medida que o poeta lhe infunde uma alma. Em Natal publica VIBRAÇÕES, prefácio de Clóvis Beviláqua: são versos de 1894 a 1903.
América de Oliveira Costa, no seu livro VIAGEM AO UNIVERSO DE CAMARA CASCUDO, prêmio nacional da Fundação José Augusto, Natal, 1969, registrando valiosas pesquisas feitas pelo escritor Hélio Galvão, assinala, entre outras, uma carta de Graça Aranha a Henrique, datada de Lausanne, 5/12/1911, na qual diz que Nabuco leu com muito prazer, e em voz alta para mim, os primeiros versos de suas ‘Vibrações’. O testemunho não podia ser mais consagrador.
Em 24 de março de 1904, quando da inauguração do Teatro ‘Carlos Gomes’, foi representada por crianças a peça de Henrique Castriciano ‘A Promessa’. N‘A Republi­ca’, de 9 de junho de 1904, o poeta publicava o seu famoso poema ‘O Aboio’. Depois desse poema, que é duma bele­za virgiliana, Castriciano podia considerar-se consagrado. Muitas outras publicações - iniciadas, mas sempre inter­rompidas - dão ao crítico, ao exegeta, a medida desse ar­tista que encontrava no verso o modelo por excelência da sua estesia literária.
Antes de qualquer análise da sua Poesia, não será des­cabido voltar ao ambiente em que Henrique Castriciano ia realizando a sua obra de escritor, de jornalista e de poeta. Natal era a cidade quieta, lírica, sonhadora, que por largo tempo permaneceu assim, lembrada em noite memorável nesta Academia por Peregrino Júnior e Paulo Pinheiro de Viveiros, quando o primeiro tomou posse na cadeira com que tanto nos honrou. Era a cidade do bondezinho do Tirol, recordada por Lauro Pinto.
Na imprensa, como acentua Polycarpo Feitosa, no seu livro QUASE ROMANCE/QUASE MEMÓRIA, pesquisa e introdução de M. Rodrigues de Melo, Imprensa Oficial. Na­tal, 1967, predominava o editorial. Era ‘A própria essência do jornal’, diz o memorialista. Henrique jamais seria o edi­torialista, como foi o irmão Eloy, mestre do jornalismo. O jornal seria para ele o meio de ir publicando poemas. Ou ‘Cartas Holandesas’, que são uma crítica, por vezes, à ma­neira errada como construíram a cidade: ela devia ter nas­cido do outro lado do Potengy, como diria no seu ensaio sobre Lourival Açucena. Essa cidade idílica, por onde tam­bém passeio as minhas recordações de estudante, encantava Castriciano. Disse-me uma vez: - “Nenhuma cidade mais bela no mundo do que Natal”. – É possível que a cidade enfeitiçada pelo seu ar romântico tenha influído para que Henrique Castriciano fosse, a seu modo, um romântico por dentro e um parnasiano por fora, um homem, como Rousseau, de passeios solitários.


Que vamos encontrar na poesia de Henrique? Não sei se me engano mas acredito que o seu ‘élan’ poético de inspi­ração por vezes grega, como a de Bilac, é um trabalho de artesanato literário. Nisso ele é um ourives pronto sempre a dar-nos a jóia completa. Mas não bastaria ao trabalhador do verso a filigrana de ouro. É necessário o que Carlos Drummond de Andrade chamou ‘o sentimento do mundo’. Penso muito no privilégio de ser poeta. Para mim ninguém resumiu melhor esse dom - tantas vezes realçado por Alceu Amoroso Lima como uma graça divina - do que o meu sau­doso amigo, o grande poeta Jorge de Lima, quando disse num poema que imortaliza os poetas:

Alta noite, quando escreveis um poema qualquer
sem sentirdes o que escreveis,
olhai vossa mão - que vossa mão não vos pertence mais;
olhai como parece uma asa que viesse de longe.
Olhai a luz que de momento a momento
Sai entre seus dedos recurvos.
Olhai a Grande Mão que sobre ela se abate
e a faz deslizar sobre o papel estreito,
com o clamor silencioso da sabedoria,
com a suavidade do Céu
ou com a dureza do inferno!
Se não credes, tocai com a outra mão inativa
as chagas da Mão que escreve.

No seu grande poema ‘A Estátua’, que é o mármore humanizado, há um momento em que ele pergunta:

Sinto desejos de rezar, enquanto
O ângelus repercute nas encostas...
Tem compaixão, tem pena do meu pranto
Por que não me fizeste de mãos postas?

Esse segredo das mãos, Henrique põe na sua estátua, eternizando um gesto que seria talvez o seu sentimento íntimo.
O fino esteta, que tem como modelo nem sempre alcançado pela poesia brasileira o soneto ‘Sonho grego’, dedicado a Sebastião Fernandes, outro ourives do verso, um quase dionisíaco da frase, o mesmo que escreve o poema rural ‘O Aboio’, cuja beleza nativa, telúrica, talvez não seja igualada por quem quer que tenha tratado das dores e ansiedades da nossa gente sertaneja.
O canto vem da alma do povo:

Ah! Como é triste o aboio!
Ah, como é triste o canto
Sem palavras - tão vago! - a saudade exprimindo
Das selvas do sertão, no mês de junho rindo
Pelos olhos azuis das crianças, enquanto
No tamarindo verde, asas abertas, trina
A beira dos currais, o galo de campina!

E mais adiante:

É isso o que nos diz, às horas da Trindade,
A voz do sertanejo, ansiando de saudade,
Nessa triste canção, doce como uma prece,
Cuja letra ninguém advinha ou conhece,
Mas cujo pensamento, ungido de emoção,
Se coubesse num ritmo, era o do coração.

Que é o aboio? Diga-o Manuel de Oliveira Paiva, no seu romance DONA GUIDINHA DO POÇO:

"E entrou a aboiar, trepado na porteira. Ao som pro­longado e continuo o gado punha-se à escuta. O jovem ergue-se da rede. Produzia-lhe aquilo um 'vivo efeito, verda­deiro gozo poético. A voz do vaqueiro serpeava como o rio, e tinha como estes marulhos e frescura. Sussurrava como as árvores, e lembrava o cheiro acre e a salutar monotonia do verde. Ia indefinidamente, cálida e aguda, como um raio de sol, e retraia-se como o sol quando passa uma nuvem. Parou, depois recomeçou.
“No jovem civilizado vinha à tona com aquela toada rústica, a nostalgia do bárbaro e do selvagem. O homem primitivo lhe emergia de dentro, lá se ia o cérebro rumi­nando fantasias imensas com o tempo, em mundo de delei­tes, num torpor de sonho”.

O quadro rural dava ao poeta uma força criadora, como se tivesse diante de si motivos outros de que se serviu sem­pre - o mar, por exemplo - ou essa obra-prima de arte poética, que é o ‘Monólogo de um Bisturi’: ­

Primeiro o coração. Rasguemo-lo. Suponho
Que esta mulher amou: tudo está indicando
Que morreu por alguém, este ser miserando,
Misto de Treva e Sol, de Maldade e de Sonho.

Isto não me comove: adiante! Risonho
Fere, nevado gume! E, ferindo e cortando,
Aço, mostra que tudo é lama e nada, quando
Sobre os homens desaba o destino medonho. . .

Fere esse braço grego! E as pomas cor de neve!
E as linhas senhoris que a pena não descreve!
E as delicadas mãos que o pó vai dissolver!

Mas poupa o ventre nu, onde repousa um feto;
Por que hás de macular o sono fundo e quieto
Desse verme feliz que morreu sem nascer?

No livro citado informa Américo de Oliveira Costa que alguns poemas de VIBRAÇÕES foram traduzidos e publi­cados na ‘Littératura Brésilienne’, de Victor Orban, na Antologia sueca de Goran Bjorkmann, da Universidade de Estocolmo. Essa dimensão universal do poeta não causa admiração. Henrique diria a Aldo Fernandes em Goianinha - conforme relata Cascudo - que, tendo de fazer um levantamento econômico-estatístico para uma autarquia federal, exclamava como a libertar-se desse estranho peso: ­Sou apenas poeta!
E dizia tudo. Fazia o seu próprio retrato. E fazia-o na melhor ocasião: fora da moldura.       
Compreenderia como ninguém a - poesia da irmã. Na ‘Nota’ que escreveu para o HORTO terminaria assim: ­“A tormenta se desfizera ao pé do túmulo; e do naufrágio em que se abismou esta singular existência resta o Horto, livro de uma santa”. Livro mais do que duma poetisa: livro de uma santa.
O artista não chegaria a esse grau de perfeição inte­rior. Seria, porém, maior do que a irmã na forma do verso, no artesanato literário, na ânsia estética - que em Auta era metafísica - de atingir a beleza e a profundidade das coisas, o doloroso sentido da vida.
A irmã estaria sempre presente ao artista inacabado. Na página que escreveu no Álbum de Madalena Antunes Pereira, sexta-feira Santa de 1915, hoje indispensável ao conhecimento do poeta e do homem, ele diz: - ‘Enfim, encontro de novo o coração da minha mocidade extinta, desfeita em milhares de versos dolorosos’. - Nada mais autobiográfico. E mais adiante:
“Eis-nos sobre o Jordão. Instintivamente, calados e pensativos, no êxtase do dia agonizante. Faz-se-me no pensamento inexplicável acuidade. Vejo toda minha vida, a casa onde nasci, os lugares da infância, o sertão, as dunas das praias do Norte e em tudo, como Vesper, a estrela soli­tária, mesmo quando o firmamento está coberto de estrelas, o perfil magoado da irmã desaparecida na morte”.
Oliveira Lima compreendeu muito bem essa influência da irmã sobre o irmão. Quando, em 1919, veio pronunciar em Natal o seu discurso de paraninfo, convidado e eleito por sufrágio feminino, como gostava de salientar, pela pri­meira turma concluinte da Escola Doméstica, viu nessa criação henriquina, que é um orgulho pioneiro do Rio Grande do Norte, a influência, ainda que discreta, da irmã do grande educador que se revelou então, Henrique Castriciano. E disse no seu discurso: 
“Sobre esta instituição paira a memória de um espírito gentil que cedo em demasia se desprendeu da terra e cujo influxo poético, emanado da região misteriosa onde se de­vem congregar as almas associadas pela comunidade de sentimentos e pela afinidade dos sonhos, deve ter inspira­do o Dr. Henrique Castriciano na sua generosa concepção”.
Artista inacabado, não terminaria o seu romance OS MORTOS, do qual publicou apenas dois capítulos na Re­vista do Centro Polimático. Nem escreveria o seu livro o sonho da sua vida - sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta. O artigo que a respeito da escritora norte-riograndense publicou no Livro do Centenário do ‘Diário de Pernam­buco’, 1925, nem de longe corresponde ao que seria de es­perar dele. Dizendo em carta a Jayme Adour da Câmara, que vinha para Natal escrever o NÍSIA - como chama­va - apenas traçava um plano. Sua Nísia era a européia, a mulher de talento extraviada na Europa. A outra, a bra­sileira augusta, é a de Adauto da Câmara, da qual o sau­doso escritor e homem público nos deu uma biografia crí­tica do mais alto interesse.
Por que Henrique ficaria sempre assim ao meio do ca­minho? Só a Escola Doméstica o tomou todo inteiro numa iniciativa arrojada que se concretizou na maior realidade educacional do seu tempo, no Brasil. Talvez ele tivesse a ânsia da perfeição. E isso - quem sabe? - o detivesse para ir e vir, meditar, refundir, começar de novo, mudar de rumo, insatisfeito sempre.
Talvez nunca achasse que tudo estava perfeito e aca­bado. Daí não ter deixado uma obra que fosse a afirmação toda do seu enorme talento. Temperamento reflexivo, o ‘filósofo’, como o chamavam, andava apenas à cata da Be­leza, como um caçador de símbolos e de magias.
Esse mágico às vezes surpreende. Não se considerava mais do que um poeta. E, no entanto, o seu Relatório sobre o vale do Ceará-Mirim, que, como Secretário do Governo, apresentou ao Governador - do Estado em 1º de junho de 1907, é um dos mais completos estudos que há, ainda hoje, sobre o problema econômico que ali reclamava, mais do que nunca, numa fase de transição do trabalho escravo para o trabalho livre, as vistas do poder público. O Relatório, transcrito na íntegra no meu livreco IMAGEM DO CEARÁ-­MIRIM, edição da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 1969, prefácio de Edgar Barbosa, nos mostra um Henrique surpreendente: - o ‘filósofo’, o abstrato, o fugi­tivo da realidade e do terra-a-terra, o homem do devaneio e da fantasia criadora surge como um economista. Surpreende, por exemplo, quando escreve: - “Há uma circunstância que prova, exuberantemente, a nossa capacidade de ação, em­bora sem método e sem o critério positivo da cultura moderna. Por mais paradoxal que pareça, a verdade é que a história do nosso desenvolvimento acha-se intimamente ligada ao aparecimento das secas”.
Acredito ter sido um desafio para Henrique esse Relatório: comportar-se como economista diante dum vale que pedia o poeta.

A ÚLTIMA VISÃO

Doente, Henrique procura o Recife. Comigo inicia a sua peregrinação pelos consultórios médicos. Hospedado no Hotel Avenida, aí, após o jantar, tínhamos sempre bons cavacos. O assunto era o mais das vezes a irmã Auta. Um dia perguntou-me se eu sabia algum verso da irmã. Recitei en­tão ‘Caminho do Sertão’, dedicado ao irmão João Câncio. Longe, uma lua imensa nascia no mar. A face do poeta era pálida. Uma lágrima brilhou rápida e fugaz como a exis­tência da ‘pobre moça tuberculosa’. Não nos tornaríamos mais a ver, assim próximos e quase confidentes.
No dia 26 de julho de 1947 faleceu Henrique Castricia­no. Edgar Barbosa dedicou-lhe uma página antológica, com que abre o seu livro IMAGENS DO TEMPO, edição da Uni­versidade Federal do Rio Grande do Norte, 1966. Morreu na Policlínica do Alecrim, aos cuidados incansáveis do Dr. Pedro Segundo, sob as vistas de outro grande idealista, que era Luiz Soares. Deixava uma herança, uma riqueza inex­tinguível: a Liga do Ensino, que o Dr. Varella Santiago continuou; a Escola Doméstica, que eterniza o seu nome; uma visão da mulher brasileira como sustentáculo da socie­dade; um roteiro luminoso no seu programa da cadeira de Educação Social na Escola Doméstica; uma forte quixotes­ca lição de idealismo. Foi um justo que morreu em paz com os homens, diz Edgar Barbosa. Discretamente abismou-se no Mistério.
Figura humana extraordinária, era único na sua ma­neira de ser. Era ‘inadulável’, diz Cascudo, num adjetivo magnífico. Ele marcava por ser ele mesmo. Parece ter es­crito para esse momento final estes versos do seu poema “A Alma das Coisas”.

Esse cortejo todo de Quimeras,
De Sonhos, de Visões eterizadas,
Passou, casto luar das Primaveras!
Passou, doce luar das Alvoradas

Hoje, nada mais resta. Solitário
Eu sou! E sobre mim, tristes chorando,
Bem como as notas de um estradivário,
Voejam as aves da saudade, em bando.

Srs. Acadêmicos: Esta é a Casa de Henrique Castriciano, nosso primeiro Presidente. Voejam aqui as aves da saudade. Mas o que fica - a sua alma criadora de poeta - é o seu legado, a sua presença, a perfeição do artista ina­cabado.
Da sua bela e generosa vida se poderia dizer, em lin­guagem fielmente castriciana, que, se coubesse num ritmo, era o do coração.

____
Discurso pronunciado no Salão Nobre da Academia Norte-Riograndense de Letras, no dia 15 de março de 1974, data do primeiro centenário de nascimento do Dr. Henrique Castriciano de Souza e publicado na Revista da Academia Norte-Riograndense de Letras, Ano XXIII, nº 11, Natal-RN, 1974, págs. 7-20.






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