este

src="http://www.google.com/friendconnect/script/friendconnect.js">

segunda-feira, 11 de julho de 2011

SERIDÓ

FAMÍLIAS SERIDOENSES: ARAÚJO PEREIRA


José Augusto

Entre as famílias que povoaram o Seridó, e ai se fixaram, a família Araujo, se não e a mais antiga, e das mais antigas, e certamente a que mais proliferou, sendo hoje a mais numerosa dentre quantas se contam radicadas naquele trecho do território norte-rio-grandense. Não e exagero afirmar que raro será o seridoense que não tenha sangue de Araujo.
O fundador da família no Seridó foi, há mais de dois séculos, Tomas de Araújo Pereira, casado com Maria da Conceição Mendonça (1), rezando a tradição, não sei com que fundamento, que Tomás era português (2) e Maria da Conceição baiana, filha de Cosme Soares de Brito e Madalena de Castro (3). Já em 1734 Tomas de Araújo Pereira pedia e obtinha uma data de terras no Seridó, para fundação de uma fazenda de gados, data que foi concedida na Capitania da Paraíba, no governo de Francisco Pedro de Mendonça Gurjão.
A data de terra e a que vem transcrita no livro de João de Lira Tavares (4), sob o numero 238, de 23 de maio de 1734, nos seguintes termos:

“Tomas de Araujo Pereira, não tendo cômodos para criar seus gados, descobriu a custa de seu trabalho um riacho chamado Juazeiro que nasce por detrás da serra da Rajada, que deságua para o rio da Cauhã e faz barra na ponta da várzea do Pico, em cujo riacho e suas bandas tem terras devolutas e nunca cultivadas; terrenos em que pede três léguas de comprimento e uma de largura, pegando das testadas do sargento-mor Simão de Góis pelo rio acima, ficando o dito rio em meio da dita largura”.

Encontro referencia a um outro Araujo, 0 coronel Domingos de Araujo Pereira, pedindo terras ao governo do Rio Grande do Norte, em 1738, no Rio de Meio, riacho do Canivete, poço do Jurupari.
Desse Domingos de Araújo Pereira não descubro, porém, outros vestígios e não sei mesmo se era parente de Tomas e, no caso afirmativo, qual o grau do parentesco.
Quanto a Tomas de Araujo Pereira, sabe-se que fundou a sua fazenda de gados, a qual deu a nome de ‘São Pedro’; e na qual viveu e criou os seus filhos, em numero de 8; 4 homens e 4 mulheres. Os homens foram Tomas de Araujo Pereira (2º), João Damasceno Pereira, Cosme Soares Pereira e José de Araujo Pereira. As mulheres: Josefa, Joana, Ana e Helena. A primeira casou com Caetano Dantas Correia, Joana casou em primeiras núpcias com Gregório José Dantas Correia, em segundas núpcias com Estevão Álvares Bezerra, Ana casou com Antônio Pais de Bulhões e Helena com João Garcia.
Tomás de Araújo Pereira Filho casou com uma filha de Rodrigo de Medeiros e Apolônia Barbosa, de nome Teresa, e teve por sua vez prole numerosa: 8 filhos varões e 4 do sexo feminino, e chamaram-se Tomas de Araujo Pereira (o 3º), Rodrigo, Antônio, Manuel, Beraldo, Felipe, Alexandre, Joaquim, Luzia, Teresa, Ana e Josefa.
Dos filhos do segundo Tomás de Araújo o que mais destacada situação alcançou foi o que lhe herdou o nome, o qual exerceu, por largo espaço de tempo, prestigiosa influencia social e política na região do seu nascimento, estendendo-a mesmo, por vezes, a todo o Rio Grande do Norte.
Tomás de Araújo Pereira (o terceiro), era homem de pequena cultura, mas de grande acuidade intelectual e de rija tempera e severos costumes. Além do mais, as suas condições de família deram-lhe um grande relevo na zona em que residiu. Sobrinho afim de coronel Caetano Dantas Correia; sobrinho legítimo do capitão-mor Manuel de Medeiros Rocha; genro do coronel Antônio Garcia de Sá Barroso; filho e neto dos dois primeiros Tomás de Araújo que foram prestigiosos elementos sociais seridoenses, Tomás de Araújo estava naturalmente destinado a ser, como foi realmente, o herdeiro e depositário máximo da força e da consideração social de sua família, transmitidas através das gerações por varões do maior respeito.
Teve, ao demais, de exercer a sua atividade na época em que o Seridó começava a aparecer nos concílios governamentais do Rio Grande do Norte.
Já em 1821, antes mesmo da Independência do Brasil, seu tio Manuel de Medeiros Rocha era eleito para a Junta Provisória de Governo.
No começo de 1822 nova Junta e eleita e a ela pertenceu Tomás de Araújo, que, desde então, passou a ser no governo o representante do Seridó, ao invés de seu tio, que assim cedia o posto ao sobrinho de confiança e estimação.
Proclamada a Independência do Brasil, ao ter de escolher o homem a quem devia ser confiada a tarefa maior do governo, o Imperador não hesitou na designação de Tomás de Araújo Pereira, e fê-lo nos seguintes termos:

“Carta Imperial - 25 de novembro de 1823 - Nº 168.
Tomás de Araújo Pereira: Eu, o Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil, vos envio muito saudar. Tendo consideração aos vossos distintos merecimentos, patriotismo, dedicação a Sagrada Causa deste Império, e mais qualidades recomendáveis que concorrem na vossa pessoa e que vos constituem digno desta Minha Imperial Contemplação; Hei por bem nomear-vos Presidente para a Província do Rio Grande do Norte em virtude da Carta de lei de vinte de outubro do corrente ano, de cujo Lugar tomareis posse com as formalidades que se acham estabelecidas, a qual vos será dada pelo atual Governo Provisório, que desde então não continuara as suas sessões; recebendo dela e da Câmara da Capital as noticias que forem convenientes ao Serviço Nacional; e procedereis imediatamente a eleição do Conselho da Província na forma determinada na mesma carta de Lei; cuja fidedigna observância fareis manter para prosperidade dos povos que vos são confiados. O que me pareceu participar-vos para vossa inteligência e execução. Escrito no Palácio do Rio de Janeiro, em vinte e cinco de novembro de mil oitocentos e vinte e três, segundo da Independência, e do Império.
Imperador - João Severiano Maciel da Costa.
Para Tomas de Araujo Pereira
Cumpra-se como S. Majestade Imperial manda, e registre-se na Secretaria deste governo, na Câmara desta cidade, e na Secretaria da Junta de Fazenda Publica.
Quartel do Governo da Cidade de Natal, 5 de maio de 1824, 3º da Independência, e do Império”.

Tomás de Araújo recebeu a nomeação sem o menor entusiasmo. Protelou enquanto pode a sua posse, que só se realizou a 5 de maio de 1824, quase 6 meses após a sua nomeação, dirigindo-se imediatamente ao Imperador para solicitar-lhe demissão do cargo, alegando, são palavras suas, ponderosos motivos que o inibiam para desempenhar uma comissão de tanto melindre, e esses motivos eram, além de outros, a sua avançada idade, cegueira e enfermidade crônicas.
Em tais condições, reputava-se o menos indicado para uma tarefa de tão grandes responsabilidades, mormente tendo-se em consideração o estado de desordem em que se debatia a Província, em cuja Capital a tropa de linha sublevava-se continuamente em tumultos, ora contra o elemento português, ora sob outros fundamentos.
Por outro lado, surgiam, por essa mesma época, fermentos revolucionários que se canalizaram afinal no grande movimento cívico que se chamou a Confederação do Equador e que envolveu todas as províncias nordestinas, entre elas o Rio Grande do Norte.
Na impossibilidade de por ordem no caos que era então o Rio Grande do Norte, Tomás de Araújo demitiu-se a 8 de setembro de 1824 passando o governo a Lourenço José de Morais Navarro, Presidente da Câmara do Senado de Natal.
O sucessor de Tomás de Araújo entrou desde logo, como e comum na hora das quedas políticas, a fazer pesada carga contra o seu antecessor, acusando-o, sobretudo de crime de conivência com os elementos revolucionários, e assim de traição à causa do Império e à pessoa do Imperador.
Há hoje publicada farta documentação a respeito desse incidente da vida política potiguar, de modo que fácil será ao historiador, isento de paixões, fazer o julgamento sereno e imparcial das figuras que tiveram papel de relevo a desempenhar naquela emergência.
A defesa de Tomás de Araújo, por ele mesmo escrita em sua fazenda Mulungu, no município da Vila do Príncipe, e enviada ao Imperador em 13 de novembro de 1824, parece-me cabal e completa (5).
A sua ação, ao que se evidencia, foi toda norteada no sentido de “conservar aquela porção do Povo que S. M. lhe havia confiado, ileso de divergências políticas, e evitar a menor intriga, e guerra civil”.
O seu papel foi assim de conciliação, atitude que nunca os contemporâneos justificam, mormente nas horas de acesas e acerbas lutas políticas, em que só são compreendidos e apreciados os elementos radicais e extremados.
Para mim, Tomás de Araújo Pereira, em toda a sua vida homem de uma só palavra e de posições definidas, tendo, como ele mesmo disse, jurado espontaneamente o Projeto de Constituição, e convencido ao mundo inteiro a sua subordinação às leis e fidelidade ao seu Soberano, jamais se deixando levar da impetuosa corrente de opiniões republicanas, anárquicas e subversivas da obediência e boa ordem, em uma idade sexagenária, quando já olha a cada instante mental e para sepultura; adotando princípios diametralmente opostos de educação com que foi criado e mantido.
Ficou desse modo fiel ao Imperador e ao Poder Constituído, não tendo praticado um só ato do qual pudesse se inferir adesão à causa revolucionária, mesma que sentisse pelos que a encarnavam íntimas inclinações, perfeitamente compreensíveis, dados os laços de parentesco próximo que a prendiam a figuras da maior graduação a frente do movimento ou por ele revelando simpatias e manifestando aplausos.
Félix Antônio, o Governador revolucionário da Paraíba, era casado com uma sua prima; o coronel Antonio Bezerra de Souza Menezes, governador das armas no movimento do Ceara, era tio avó dos dois Ciprianos, um Lopes e outro Bezerra Galvão, casados com duas netas de Tomás de Araújo; o capitão-mor Manuel de Medeiros Rocha, tio de Tomás de Araújo, acolheu frei Caneca no Seridó, com as mostras da maior deferência.
Via, assim, Tomás de Araújo muitos e destacados membros de sua família inclinados para a revolução ou dela participando ativamente.
Mas nem por isso faltou à fé dos seus compromissos públicos; e a sua palavra foi sempre de condenação à causa revolucionária.
Nesse passo, Tomás de Araújo diz que não dúvida haver cometido infinitos erros par falta de luzes e do legítimo Conselho, mas só poderão ser estes erros de entendimento, e não de vontade.
O que não quis foi fazer obra de perseguição aos adversários vencidos, entendendo poder defender os direitos do Imperador, a cuja causa se consagrara por juramento publico, “sem hostilizar os seus súditos”.  
O certo e que Tomás de Araújo, não obstante a catilinaria do seu sucessor, deixara o poder sem desmerecer da confiança dos seus conterrâneos, afirmando Rocha Pombo que com ele “estaria talvez a grande maio ria da Província”(6).
Retornando ao seu retiro do Seridó, para a direção das suas fazendas e o trato dos seus rebanhos, o ex-presidente continuou a ser, a despeito do seu voluntário alheamento das coisas públicas, a autoridade social ouvida e consultada em todas as horas difíceis atravessadas pelas populações seridoenses, as quais, enquanto ele viveu, jamais deixaram de se socorrer das luzes da sua experiência, prudência, bom senso, moderação.
Viveu ainda mais de 20 anos, pois o seu falecimento ocorreu a 19 de março de 1847, na Vila, hoje cidade do Acari, sendo sepultado na Matriz de então, agora Igreja do Rosário, no dia seguinte, conforme o registro existente no livro de assentamento daquele templo católico, concebido nestes termos: “Aos vinte de maio de mil oitocentos e quarenta e sete foi sepultado nesta Matriz de grades acima o cadáver de Tomás de Araújo Pereira, falecido de indigestão na idade de oitenta e dois anos, casado que foi com Teresa de Jesus, (7) com todos os Sacramentos, envolto em habito preto e encomendado por mim, do que para constar mandei fazer este assento em que me assino. Vigário Tomás Pereira de Araújo (8)”.
 

Notas

(1) O coronel Manoel Maria do Nascimento e Silva, descendente de Tomaz de Araujo e Caetano Dantas, em trabalho genealógico que escreveu em 1909, hoje em meu poder, diz que, “morrendo Maria da Conceição, Tomaz casou segunda vez, na Paraíba, e tendo nascido um filho do segundo casamento, foi criado na Fazenda ‘Picos’, do Acari, sendo tratado pelo apelido de ‘Paraíba’. Foi pai de Manoel de Araújo e este de Miguel de Araujo, que residiu no lugar Boqueirão”.

(2) Tomaz de Araújo Pereira seria realmente português, como reza a tradição, no Seridó, ou teria nascido já no Brasil, descendendo de Amador de Araujo Pereira, que é o tronco da família em Pernambuco?
Vale a pena transcrever a noticia que a respeito de Amador refere Borges da Fonseca na ‘Nobiliarchia Pernambucana’: “Amador de Araujo Pereira é, em Pernambuco, o tronco da família do seu apelido. Dele fazem honorífica memória dos autores que escreveram a Guerra dos Holandeses, na qual foi eleito capitão-mor de Ipojuca, quando João Fernandes Vieira, em 1645, aclamou a liberdade e procedeu com tanta honra que Sua Majestade em atenção aos seus serviços o nomeou governador de São Tomé, posta que não logrou, por falecer quando estava para embarcar. Foi natural da Província do Minho, onde seus pais Pedro Gonçalves, o novo, e Felipe de Araújo Pereira, parentaram em grau muito próximo com a casa do Esquivo e com a de D. Miguel de Azevedo e de Luis de Miranda Pereira, com cujos parentes conservou sempre comunicação, como se prova das cartas que conservam descendentes. Veio a Pernambuco antes da entrada dos holandeses e casou, na freguesia de Ipojuca, com D. Maria da Costa de Lima, filha de Álvaro Gonçalves de Luna e de sua mulher Izabel da Costa, pessoas principais da mesma freguesia”. (Borges da Fonseca, vol. 19, pags. 28 e 456).

(3) Nas notas do coronel Manoel Maria do Nascimento e Silva há a afirmação de que Maria da Conceição é paraibana. Felipe Guerra, porém, diz que Cosme Soares de Brito casou-se, na Bahia, com Magdalena de Castro e que a filha do casal, de nome Maria da Conceição, e baiana, casada com o português Tomaz de Araújo Pereira; e Urbino Viana, no livro “Bandeiras e Sertanistas Baianos”, enumera entre as fazendeiros de gado anteriores a 1664, no baixo São Francisco, o capitão Cosme de Brito. Será o marido de Magdalena de Castro e sogro de Tomaz de Araujo?
Tambem nas ‘Publicações do Arquivo Nacional’, Vol. XXVII, pág. 48, aparece um Tomaz de Araujo, como tendo vendido terras a Antonio de Melo Cabral, nas imediações do rio Sergipe. Será o marido de Maria da Conceição, o patriarca seridoense? Será Tomaz de Araujo Pereira?

(4) João de Lyra Tavares. Historia Territorial da Paraíba, vol. I, pag. 145.

(5) Publicações do Arquivo Nacional, Vol. XXV, págs. 329, 330 e 331.

(6) Rocha Pombo. História do Estado do Rio Grande do Norte, pags. 303 e 304.

(7) Filha do coronel Antônio Garcia de Sá Barroso e d. Ana Lins de Vasconcelos.

(8) Neto de Tomás de Araújo, o Presidente.


FONTE: AUGUSTO, José. Seridó. 2 ed. Brasília: Senado Federal, 1980, pag. 75-80.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

PESQUISA NO SITE