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terça-feira, 24 de agosto de 2010

AUGUSTO DOS ANJOS


O POETA DO 'EU'
Otto Maria Carpeaux

Augusto dos Anjos não teve sorte na vida: parecia a personificação de uma fase especialmente infeliz da evolução intelectual do Brasil, mistura incoerente de uma cultura ou semicultura bacharelesca, ávida de novíssimas novidades científicas, mal assimiladas, e dos ambientes das massas populares miseravelmente abandonadas nas ruas estreitas do Nordeste tropical. Ninguém o compreendeu, ninguém lhe leu os versos nos cafés superficialmente afrancesados do Rio de Janeiro, e é conhecida a cena de um dos seus raros admiradores que leu um soneto de Augusto dos Anjos a Olavo Bilac e recebeu a resposta desdenhosa: "É este o seu grande poeta? Fez bem ter morrido!" Foi uma época de eclipse do sal, de trevas ao meio-dia.
Quem salvou a fama póstuma de Augusto dos Anjos foi seu povo, o od Nordeste e do interior do Brasil. A abundância de estranhas expressões científicas e de palavras esquisitas em seus versos atraiu os leitores semicultos que não compreenderam nada de sua poesia e ficavam, no entanto, fascinados pelas metáforas de decomposição em seus versos assim como estavam em decomposição suas vidas. Nada menos que 31 edições do seu livro EU dão testemunho dessa imensa popularidade que é o reverso da medalha - repeliu os leitores exigentes, de tal modo que, até durante a fase modernista da literatura brasileira, os versos de Augusto dos Anjos passaram por exemplos de mau gosto de uma época superada.
Foram alguns poucos leitores dedicados que conseguiram reivindicar e restabelecer a verdadeira grandeza de Augusto dos Anjos: Álvaro Lins, Antônio Houaiss, Francisco de Assis Barbosa (e, assim como nos quadros que pintou de altar de igrajas medievais o pintor ousava colocar no último canto seu auto-retrato, assim ouso colocar no fim dessa lista meu próprio nome). Lendo e relendo o EU, sempre descobrimos coisas novas, estranhas e admiráveis.
O mau-gosto da expressões científicas e pseudo-científicas? Augusto dos Anjos tem o poder extraordinário de revelar um sentido oculto nos sons dessas palavras bárbaras, que acrescentam um novo frisson às suas visões tétricas e profundamente comoventes. Suas rimas surpreendentes e extravagantes abrem horizontes nunca vistos; parece-se ele com os metaphysical poets ingleses que não conhecia. Até sabe dar sabor metafísico a nomes prórpios; e mesmo quem ignora que a casa do Agra no Recife, no fim da ponte Buarque de Macedo, é o necrotério, sebte todo termor da morte ameaçadora no verso: "Recife. Ponte Buarque de Macedo...", tremor devido ao terrificante e como que definitivo ponto atrás da palavra "Recife", censura que é a linha divisória entre a vida e o fim da vida.
Existem em Augusto dos Anjos inúmeros casos assim, de descoberta de um sentido novo das palavras. Nem sempre percebemos claramente os motivos da nossa admiração. É o esclarecimento desses motivos que devemos, agora, a Ferreira Gullar.
Sua análise estilística da poesia de Augusto dos Anjos é precisa, sem cair jamais no jargão pseudo-científico dos pseudo-especialistas. Tem, como ponto de partida, uma indicação exata da situação literária do Brasil naquele tempo e como base uma análise sociológica, não menos exata, da vida e morte e morte nordestina de que Augusto dos Anjos é o poeta. Mas essa crítica não é só estilística nem apenas sociológica. O permanente ponto de referência é a psicologia do poeta que deu a seu livro o título EU. É um trabalho completo. Também é completo quanto às referências ao futuro. Augusto dos Anjos escreveu nas formas parnasianas do seu tempo. Modifica-lhes o sentido pelas influências de Baudelaire e de Cesário Verde e por algumas luzes do simbolismo. Mas preanuncia igualmente a poesia de Carlos Drummond de Andrade e de João Cabral de Melo Neto, justamente lembrados por Ferreira Gullar.
Quando Augusto dos Anjos morreu, o céu da poesia brasileira estava escurecido como por trevas ao meio dia. Ninguém o reconheceu. Hoje, a literatura brasileira parece, outra vez, escurecida por trevas. Mas quem sabe se não se encontra, irreconhecido entre nós - ou mesmo longe de nós - o grande poeta que sabe dizer como este povo sofre e lhe prever uma nova aurora.

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